Análise de políticas esportivas: É possível "pensar" a partir da psicologia do esporte?

O campo de análise de políticas está bem consolidado no Brasil e no mundo. No Brasil especificamente, temos importantes contribuições de pesquisadores analisando políticas de saúde e políticas educacionais. Porém, no contexto esportivo, temos nos debruçado pouco a investigar as políticas esportivas locais e nacionais.


Aos profissionais de psicologia do esporte, considero importante atentar para as políticas locais, uma vez que são evidentes as repercussões psicossociais de qualquer movimento de uma política. Por isto, gostaria de utilizar como exemplo os acontecimentos recentes na cidade de Manaus (AM), que tem gerado alguns debates relevantes no campo das políticas esportivas locais:

1. A suspensão do bolsa atleta municipal;

2. A extinção do conselho municipal de esporte;

3. A construção do velódromo.


Nas decisões tomadas a partir do poder executivo do referido município, diversos atores (atletas, presidentes de federação, treinadores, ex-atletas, comunitários e familiares) tem se mobilizado para questionar cada tomada de decisão da gestão municipal. No âmbito da suspensão das bolsas e da extinção do conselho, estes atores têm questionado os motivos de tais decisões face ao movimento de perda de direitos de atletas, dos quais muitos vivem em situação de vulnerabilidade social.


Em relação ao velódromo, a comunidade local tem questionado a retirada de toda a área verde da região e o aumento da temperatura com a falta de cobertura vegetal. Em alguns comentários nas redes sociais, tem sido destacado por alguns moradores e entusiastas do esporte a perda da qualidade de vida que população local poderá sofrer. Estes são exemplos claros de um efeito conhecido como "top-down" nas políticas. Elas simplesmente são determinadas por um conjunto de atores e em seguida impostas aos grupos que serão impactados diretamente por tal política. Enquanto uns "empreendem" e "ditam", outros assumem a posição de meros "receptores". Neste caso, atletas, comunidade, treinadores etc.


À nós, psicólogos e pesquisadores, caberia assumir o papel de analistas críticos destes movimentos da política. Nos cabe o papel técnico de analisar e avaliar os possíveis desdobramentos de uma política para melhor tomada de decisão em níveis locais. Seja pelo alerta aos gestores esportivos e comunidades envolvidas ou por consultoria aos poderes executivos, legislativo e judiciário. Afinal, temos o potencial de elencar quais implicações que estas "danças" no cenário de implementação de uma política tem para a saúde mental de atletas ou de uma determinada comunidade.



Matheus Vasconcelos Torres

Psicólogo CRP-20/08564

Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Condições de Vida e Situações de Saúde na Amazônia (PPGVIDA) - Aluno de Mestrado

Instituto Leônidas e Maria Deane - Fiocruz Amazônia

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