Prazer e atividade física

6 de abril é o dia mundial da atividade física e, como não poderia ser diferente, resolvemos pesquisar assuntos relacionados ao tema e, de imediato, veio a pergunta: por que o sedentarismo atinge índices altos, quando atividade física contribui para saúde do corpo e da mente? Será que este hábito não é prazeroso?



Os psicólogos do esporte Thabata Telles, estudiosa da fenomenologia, e Murilo Calafange, especialista em neurociência e mestrando em neuropsiquiatria e ciências do comportamento, falaram (muito, rsss) sobre o tema


Há prazer na atividade física? Se sim, depois de quanto tempo este efeito é percebido?

As perguntas foram apenas estas, mas o debate rendeu um conteúdo bastante interessante.


Thabata - Acho muito perigoso falar de prazer na atividade física. Porque pode gerar uma expectativa de que é possível sentir prazer logo de cara. Principalmente pelo fato de que, um exercício novo pode ser um evento estressor e talvez demore para existir uma relação prazerosa.


Murilo - É bastante complexa esta questão. Prazer não está, necessariamente, ligado à prática da atividade física. Prazer é a consequência.


No meu viés, neuropsicofisiologia, dentro das neurociências, atividade física é tratamento, é remédio. Para todos os meus pacientes, independente dos quadros de ansiedade, depressão... eu prescrevo atividade física. Porque ela vai trabalhar a parte metabólica do organismo, que ajuda no funcionamento do cérebro.


Antes de uma resposta de prazer, tem que ter estímulo. Não é só uma questão química. O cérebro é responsivo e com o estímulo ele responde.


Se a primeira motivação for saúde, no final, vendo os ganhos, o desejo de continuar pode prevalecer. É o que chamamos de recompensa. Diferente de avaliar se é bom ou ruim. O que, neste caso, é a ação de outra área do cérebro, o córtex cingulado, que ajuda no julgamento.


O prazer, por si só, é a endorfina, que só é ativada no corpo após atividade física. Ela traz uma sensação de bem-estar e pode ser caracterizado como prazer. Mas ainda ficamos na questão: fazer ou não atividade física, porque será prazerosa ou não? A atividade física tem um fim, uma função: proporcionar saúde.


Thabata - Murilo, o que você está dizendo complementa meu pensamento. Quero destacar dois pontos: o primeiro sob a lógica de uma fenomenologia mais cognitiva, especialmente na questão da percepção e ação, que é o que estudo mais. Penso no prazer e na dor como parte de um mesmo processo. São basicamente pólos opostos. A percepção da dor faz com que eu mude meu curso de ação, enquanto a percepção do prazer, incentiva a manter determinada ação. Se eu não tenho uma percepção de prazer em algo, eu volto minha atenção para outra coisa, como por exemplo: posso desligar a TV porque não está transmitindo algo que me agrade.


Do ponto de vista da percepção e da ação, o prazer é muito importante para manter a continuidade deste curso de ação. Nesse sentido, o outro ponto é que temos que desmistificar um pouco essa ideia, da atividade física e da sensação de prazer, já que é necessário um tempo em determinada ação para que o prazer possa ser sentido e percebido. Ou seja, não é algo imediato e nem pode ser tomado como certo que a pessoa vai se movimentar e logo sentir prazer. E sobre isto eu pergunto ao Murilo: No sentido temporal mesmo, quando os neurotransmissores começam a agir?


Murilo - Respondendo como neurocientista, não fazer atividade física significa deixar de produzir alguns hormônios e neurotransmissores.