O esporte de joelhos: do espetáculo da violência racial a asfixia das vítimas

Atualizado: 5 de jun.


Prof. Dr. Neilton Ferreira Júnior

O momento histórico em que nos encontramos coloca-nos diante de dilemas, cuja complexidade é capaz de dissolver esperanças ingênuas e soluções provisórias. Dentro desse conjunto de dilemas, o racismo talvez seja o que mais tem ocupado a centralidade do debate público, uma vez que as suas formas de manifestação parecem se multiplicar, sem encontrar maiores adversários pelo caminho. Ancorados à melhor definição do termo, sabemos que o racismo compreende um sistema que organiza hierarquicamente as relações sociais, exaurindo possibilidades de reconhecimento, naturalizando processos de extermínio, exploração, alienação, desumanização e adoecimento psíquico, reproduzindo-se numa relação simbiótica com a modernidade e suas instituições.


Embora represente um campo de disputa fundamental à emergência do reconhecimento às diferenças, o esporte moderno, especialmente a sua versão profissionalizada e espetacular, há muito vem se estabelecendo como um terreno fértil à reprodução e atualização de formas de desumanização e alienação, com base no racismo. Uma dessas formas, aparentemente imperceptível, se refere à invisibilização e asfixia social das vítimas.


Antes de entrarmos mais detalhadamente neste subtema, importa recuperar algumas categorias teóricas, sem as quais será impossível apreender a complexidade do nosso dilema histórico. Conforme salientou Frantz Fanon, “estudar as relações entre racismo e a cultura é levantar a questão da sua ação recíproca”, tendo em vista que: “se a cultura é o conjunto dos comportamentos motores e mentais nascido do encontro do homem com a natureza e com o seu semelhante”, logo, é possível dizer que “o racismo é, sem sombra de dúvida, um elemento cultural”. Em outras palavras, falamos de um elemento que não se manifesta solto, descolado da cultura, mas compondo e dando forma a ela. Fanon salienta que “há culturas com racismo e culturas sem racismo”[1], contudo, não é este o caso da cultura esportiva moderna, por diversas razões históricas, das quais não podemos dar conta integralmente. Em resumo, esporte e violência racial desenvolvem-se no interior do chamado “processo civilizatório” protagonizado pelas forças colonialistas europeias e norte-americanas. Processo que - dentre outras coisas - representou a destruição, quando não a marginalização de sistemas e identidades culturais inteiros, concebidas como inferiores.


Tendo se autodeclarado nascedouro da razão, da cultura e humanidade legítimas, o Ocidente, com sua representação burguesa e colonial, deu forma política e juídica à reprodução da invisibilidade e silenciamento das culturas e corpos não brancos. Primeiro durante a construção do modo de produção escravista, onde a exploração dos sujeitos de pele negra (especialmente) baseou-se não só na sua transformação em corpo-mineral, corpo-mercadoria e corpo-moeda, mas serviu de base à construção de todo uma gramática, economia política, filosofia, antropologia, ciência e arte reforçadoras da crença de que os negros foram abandonados pela razão. É de todos conhecido o papel da história oficial e do desenvolvimento do direito liberal burguês na garantia da invisibilidade das vítimas da barbárie colonial, repetidamente narrada como processo civilizador. Mas não é tão conhecido, contudo, o fato de que o esporte moderno também participou desse processo, estabelecendo-se compulsoriamente nos territórios que iam sendo ocupados pelos brancos[2].


Também nunca é demais recordar que dentre as características distintivas desse esporte de sobrenome moderno destacam-se o secularismo, a "igualdade" entre participantes, a burocratização, a especialização, a racionalização, a quantificação e a obsessão com o recorde [3]. Embora nenhuma dessas características escape à crítica da modernidade, elas se estabelecem no esporte de modo quase incontestável, a ponto de seus ideólogos assumirem que o fenômeno em questão se desenvolve de forma autônoma, imune ao assédio capitalista e às querelas da vida política e ideológica. Para esse grupo de entusiastas, o esporte moderno representa "o reino da técnica", e a técnica, por sua vez, se distingue pela sua “neutralidade”[4]. Disso resultará a ideia de que violências tais como o racismo não são subprodutos da cultura esportiva, mas de relações interpessoais das quais o esporte compreenderia apenas um “cenário”. Seguindo esse raciocínio, não haveria nada no esporte, em sua estrutura nuclear, que precise ou se permita ser alter, mas apenas os indivíduos com seus vícios e maldades. Há quem fielmente acredite que o próprio esporte seja o remédio para a cura das doenças sociais.


Ancorada à ponderação de Fanon, nossa reflexão, por outro lado, defende a tese de que o esporte, tal como configurado, foi e tem sido instrumento de reprodução de racismos, bem como das vítimas invisibilizadas e silenciadas. Secularizado, este sistema de práticas competitivas espetacularizadas abdica ao reconhecimento de gestos e corporeidades que comunicam outras visões de mundo. Retoricamente representado como terreno da igualdade, não se permite interpelar à luz do exame da realidade. Burocratizado, se estabelece como estrutura suficientemente autônoma, rígida e pouco afeita à cultura democrática. Racionalizado, submete-se tão somente aos interesses do modo de produção vigente, que agora se serve do próprio esporte (na forma dos megaeventos) para suspender soberanias populares e instituir um eficiente sistema de transferência de riqueza de periferias globais para países centrais [5]. Orientado à quantificação e superação de recordes, terá muita dificuldade para enxergar e compreender as dores decorrentes desta orientação. Em outras palavras, estamos falando de um sistema cultural que tem nos oferecido pouco ou quase nenhum espaço ao cultivo da alteridade e do reconhecimento.