Autismo, seus graus de comprometimento e o esporte

Em abril, nossa atenção está voltada para o Dia de Conscientização sobre o Autismo. A data escolhida, 2 de abril, foi estabelecida pela ONU (Organização das Nações Unidas), tem o "objetivo de levar informação à população para reduzir a discriminação e o preconceito contra os indivíduos que apresentam o Transtorno do Espectro Autista (TEA)".



Embalados pelo tema, fomos conversar com dois profissionais que estudam sobre o autismo e trabalham com esta comunidade: o Professor Paulo Chereguini, doutor em educação especial, profissional de educação física, analista do comportamento com ênfase no autismo e idealizador do Modelo ExerCiência de intervenção e supervisão; e o Professor Rodrigo Damasceno, psicólogo, responsável e idealizador de um projeto que correlaciona a psicologia do esporte e psicomotricidade com aulas de jiu-jitsu com crianças neuroatípicas (atípicas).



Prof. Paulo Augusto Costa Chereguini

ENTREVISTA PAULO CHEREGUINI


ABRAPESP - O que é o Transtorno do Espectro do Autismo - TEA?


Paulo - O TEA, comumente conhecido simplesmente como autismo, é caracterizado, segundo a 5ª edição do Manual diagnóstico e estatístico de doenças mentais (DSM-V), por uma díade de comprometimentos que envolvem:

a) atrasos no desenvolvimento nas áreas da comunicação e da socialização;

b) bem como a apresentação de padrões restritos e repetitivos de interesse, ritualísticos, as vezes anormais em intensidade e foco, comportamentos vocais e motores estereotipados e ainda hiper ou hipo sensíveis a estímulos sensoriais.

Inicia o Prof. Paulo e disserta ...



Paulo - O impacto do TEA pode ser intenso na vida da pessoa e também da sua família. Por se tratar de um transtorno em um “espectro”, o impacto pode variar muito de pessoa para pessoa, tanto em relação às áreas comprometidas quanto à gravidade de comprometimentos. Não se classifica o TEA por base em alguém ser mais ou menos autista, mas sim em termos de necessidade de suporte, variando de 1 até 3. O nível 1 envolve auxílio em situações pontuais e temporárias na vida, seja na escola, na faculdade, no trabalho, em relações sociais ou lidar com emoções que podem ser no esporte. O nível 2 caracteriza-se pelo suporte intermitente em mais de uma área adaptativa da sua vida, às vezes requerendo mais intensidade na mediação para iniciar ou manter interações, nas atividades acadêmicas, atividades da vida diária ou mesmo no engajamento e prontidão para a prática de exercício físico. Já o nível 3 pode envolver dependência de suporte intensivo e contínuo em todas as atividades da vida da pessoa, sendo a prática de exercício físico, nestes casos, requerendo apoio total mas podendo, por outro lado, desencadear efeitos na redução de comportamentos estereotipados, autolesivos ou agressivos. Em termos práticos, o diagnóstico de TEA (realizado a partir de avaliações neuropsicológicas) viabiliza mais facilmente acesso aos direitos garantidos pela Lei Brasileira de Inclusão, de 2015, e aos tratamentos mais efetivos, mas são os desempenhos em avaliações comportamentais de desenvolvimento que vão guiar os profissionais envolvidos na equipe terapêutica sobre os objetivos prioritários, particularizadamente, e os procedimentos de ensino com mais chances de sucesso, explica Dr. Paulo Chereguini.


TEA em números


Pessoas com TEA representam de 1,5 a 2,5% da população mundial. Os dados apresentados pelos órgãos americanos de estatística mais recentes mostram que 1 em cada 44 crianças de 8 anos possui o diagnóstico de TEA. No Brasil não temos dados oficiais, mas o censo de 2020 que será realizado em 2022, pesquisará o autismo, que "vai entrar no radar das estatísticas como forma de mapear quantas pessoas vivem com o transtorno e quantas podem ter, mas ainda não tiveram diagnóstico", diz matéria de Sayonara Moreno, repórter da Rádio Nacional. Um alerta feito por Chereguini "é que, em função da grande parte das famílias de pessoas com TEA no Brasil não terem acesso ao diagnóstico, seja por fins econômicos (serviço caro) seja por indisponibilidade de profissionais capacitados, ou ainda devido muitas famílias negarem o diagnóstico de seus filhos (por desconhecimento, acredita-se ainda que autismo é castigo de Deus ou culpa da mãe que “não quis” a gravidez - mãe geladeira) os dados nacionais do censo podem ser subestimados, o que vai direcionar equivocadamente políticas públicas aquém do real número de brasileiros com TEA".


O autismo é mais comum em homens, numa proporção de 4 para 1, "por isso que, historicamente, o símbolo que relacionava ao autismo era uma peça de quebra-cabeça na cor azul, sinalizando a predominância de homens e complexidade do transtorno. Este símbolo tem sido questionado pela própria comunidade do autismo que vem propondo como símbolo um sinal do infinito colorido, sinalizando as múltiplas possibilidades e qualidades da pessoa com TEA, para além da sua identidade de gênero e orientação sexual". explica Prof Paulo Chereguini


TEA no esporte


ABRAPESP - Até que grau de TEA não compromete a participação no esporte?


Paulo - Além disso, sabemos que as pessoas com TEA estão em geral muito menos engajadas em práticas esportivas e em exercício físico do que seus pares que apresentam desenvolvimento típico. Em parte as barreiras para o acesso e permanência qualificadas das pessoas com TEA, nesses contextos, estão relacionadas às suas dificuldades comunicativas e sociais, interesses restritos, padrões ritualísticos, possível intolerância à frustração e ao erro e às mudanças de rotina. No entanto, as principais barreiras são de natureza atitudinais, que dizem respeito às atitudes preconceituosas e maldosas de outras pessoas diante das pessoas com TEA, e de natureza pedagógicas, ou seja, da falha na formação qualificada de profissionais que viabilizem ambiente harmônico e favorável de ensino e aprendizagem das pessoas com TEA.