Aposentadoria de atletas jovens, é precoce?

Nos últimos dias, duas declarações de afastamento de atletas, chamaram atenção: a da tenista australiana Ashleigh Barty, 25 anos, número 1 no ranking do WTA, informando que não irá mais disputar jogos profissionais; e a publicação do jogador da seleção brasileira de vôlei, Douglas Souza, 26 anos, nas redes sociais, de que vai deixar a seleção e ficar apenas em clube.


Além da idade, as declarações de ambos, publicadas na mídia, chamam a atenção para outros fatores:


Fonte: Wikimedia Commons/ site Carine https://www.flickr.com/people/43555660@N00
Ashleigh Barty - Creative Commons - autor Carine06

"Eu não tenho mais a disposição física, emocional e tudo o que é necessário para você se desafiar no mais alto nível", revelou Barty na despedida.







Douglas fez uma declaração mais detalhada*, dada a repercussão das fake news, mas o destaque para o stress foi o mesmo.


Para conversar mais sobre o tema, fomos buscar a experiência da Profa. Dra. Luciana Ferreira Angelo, psicóloga do esporte, atuando com a equipe feminina de futebol sub-20, ex-presidente da Abrapesp.

Prof. Dra. Luciana Angelo

O que você pode dizer sobre estas "aposentadorias"? São prematuras? Deveriam escolher priorizar-se ao invés de ceder às pressões de manter-se “onde todo mundo quer estar”? Como fica a coragem da decisão ?


LUCIANA - Notícias sobre aposentadoria no esporte surpreendem, sejam elas originárias de atletas mais velhos ou mais novos. Com os mais novos e em momentos de ascensão na carreira, o público em geral não entende o que ocorre. Para os que vivem o dia a dia da vida de atleta, é compreensível que tenhamos atletas que se permitam viver fases da profissionalização esportiva gerenciando ciclos. As gerações mudam e os casos citados revelam a possibilidade de escolha, a qualidade de vida que pretendem ter.


No caso da atleta australiana, a cultura do bem estar e a posição conquistada, foram fatores estimulantes e reforçadores da decisão. Importante é que a atleta já havia tido um episódio de “parada” em 2014 para descansar, pois as responsabilidades só aumentavam conforme a melhora de seus resultados. Nesse período, tornou-se jogadora de uma liga semi-profissional de críquete, provando que nasceu para a prática de esportes.Com lesões atuais, mais uma vez refez seu processo de avaliação e decidiu pela aposentadoria.


Já o atleta brasileiro, aponta o tema da saúde mental como o determinante da sua decisão em deixar a seleção brasileira e continuar nos clubes. Para participar de uma seleção há um longa negociação e um tensão frequente para que os clubes cedam seus atletas por períodos definidos em competições de representação nacional. Assim, me parece coerente e adequado que o atleta tenha autonomia para escolher o que quer viver na carreira esportiva.


Luciana, qual o impacto da interpretação da mídia? A revista Veja tem uma coluna onde Ana Alice Gigliotti trata como desistência e o próprio Douglas foi às redes sociais esclarecer os fatos.


LUCIANA - Não entendo como desistência, mas como competência pessoal e maturidade para escolher o que quer fazer da sua vida profissional. O que vale lembrar é que a atleta tem outras competências a serem desenvolvidas e, por muitas vezes, o que ocorre é que a rotina esportiva não oferece condições para que eles possam viver seus papéis sociais de forma a se sentirem satisfeitos e saudáveis. O trabalho esportivo apresenta estados afetivos intensos, processos cognitivos constantes e comportamentos sociais e emocionais que estão sujeitos a instabilidades situacionais expondo frequentemente os atletas como pessoas públicas. Muitas vezes conhecemos o personagem atleta, mas não a pessoa. E essa geração tem muito a nos ofertar quando assume o ser pessoa em primeiro lugar.


Como são as transições na e da carreira de um atleta?


LUCIANA - Stambulova é uma das pesquisadoras precursoras dessa área e define as transições na carreira como aquelas em que os atletas vivem os ciclos de iniciação esportiva, amadorismo, profissionalismo e, por fim, a transição da carreira quando a aposentadoria ocorre. Ela pode se dar de forma voluntária (idade) ou involuntária (lesão, doenças, etc).


Quais os perigos dessa fase, caso o atleta não seja maduro e bem assistido?


LUCIANA - Os perigos estão e